João Bosco em defesa das universidades públicas

Nesta quinta-feira, 07/12, no plenário da Câmara, li a importante manifestação do compositor João Bosco contra os crescentes ataques a universidades públicas.

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Nesta quinta-feira, 07/12, no plenário da Câmara, li a importante manifestação do compositor João Bosco contra os crescentes ataques a universidades públicas. Nas redes sociais, Bosco repudiou o uso do seu verso “esperança equilibrista” – do hino contra a ditadura civil-militar de 1964 “O bêbado e o equilibrista”, dele e Aldir Blanc –, para batizar a operação de agressão ao reitor e professores da Universidade Federal de Minas Gerais/UFMG. Acertadamente, o compositor denunciou que a tentativa de criminalização das universidades prepara terreno para a privatização do ensino superior.

Esse ataque às universidades públicas, como lembra o reitor Ricardo Marcelo Fonseca, da UFPR, começou em dezembro do ano passado, quando a Polícia Federal invadiu a UFRGS, alegando suspeita de fraude em um programa de extensão. Meses depois, seria a vez da UFPR. O ápice, pensamos, aconteceu em setembro, quando a repressão chegou à UFSC. Mais de 115 policiais executaram diversos mandatos coercitivos, inclusive contra o reitor Luiz Cancellier, detido, algemado, exposto, humilhado e proibido de exercer o seu trabalho, em um processo que o levou à morte – não foi suicídio, foi assassinato!

Para quem pensou que essa tragédia interromperia a onda contra as universidades, o ataque de ontem, 06/12, à UFMG, acabou com toda a ilusão. O que temos é a pirotecnia, como se pode ver nas fotos em que agentes da repressão aparecem com uniforme de camuflagem, armados para a guerra, com rostos cobertos. Na operação, debochadamente batizada de “Esperança equilibrista”, o reitor Jaime Ramirez foi buscado em casa, recém-saído do banho. Quando pediu licença para se vestir, recebeu a resposta de mais uma agressão: “Você não tem mais direito à privacidade, não, rapaz!”

Mas não bastou. Hoje, 07/12, mesmo depois do martírio do ex-reitor Luiz Cancellier, a Polícia Federal voltou à UFSC, para mais terror e prisões.

Tudo isso vem sendo feito com base em investigações incompletas, denúncias vazias, delações que mais parecem fofocas e cerceamento das defesas, sob o silêncio imoral do Ministério da Educação. É um ataque sem precedentes na nossa história. Como bem diz João Bosco: “Fica aqui, portanto, também a minha defesa veemente da universidade pública, espaço fundamental para a promoção de igualdades na sociedade brasileira. É essa a esperança equilibrista que tem que continuar.”

Leia, abaixo, a mensagem do compositor João Bosco

NOTA DE REPÚDIO À OPERAÇÃO “ESPERANÇA EQUILIBRISTA”:

Recebi com indignação a notícia de que a Polícia Federal conduziu coercitivamente o reitor da Universidade Federal de Minas Gerais, Jaime Ramirez, entre outros professores dessa universidade. A ação faz parte da investigação da construção do Memorial da Anistia. Como vem se tornando regra no Brasil, além da coerção desnecessária (ao que consta, não houve pedido prévio, cuja desobediência justificasse a medida), consta ainda que os acusados e seus advogados foram impedidos de ter acesso ao próprio processo, e alguns deles nem sequer sabiam se eram levados como testemunha ou suspeitos. O conjunto dessas medidas fere os princípios elementares do devido processo legal. É uma violência à cidadania.

Isso seria motivo suficiente para minha indignação. Mas a operação da PF me toca de modo mais direto, pois foi batizada de “Esperança equilibrista”, em alusão à canção que Aldir Blanc e eu fizemos em honra a todos os que lutaram contra a ditadura brasileira. Essa canção foi e permanece sendo, na memória coletiva do país, um hino à liberdade e à luta pela retomada do processo democrático. Não autorizo, politicamente, o uso dessa canção por quem trai seu desejo fundamental.

Resta ainda um ponto. Há indícios que me levam a ver nessas medidas violentas um ato de ataque à universidade pública. Isso, num momento em que a Universidade Estadual do Rio de Janeiro, estado onde moro, definha por conta de crimes cometidos por gestores públicos, e o ensino superior gratuito sofre ataques de grandes instituições (alinhadas a uma visão mais plutocrata do que democrática). Fica aqui portanto também a minha defesa veemente da universidade pública, espaço fundamental para a promoção de igualdades na sociedade brasileira. É essa a esperança equilibrista que tem que continuar.

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