Deboche, desrespeito e irresponsabilidade

Ao culpar a população pelas enchentes, Crivella demonstra desrespeito às pessoas e esconde a falta de investimentos da sua gestão.

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As últimas declarações do prefeito Marcelo Crivella provam o quanto é possível piorar o que já é ruim. Em meio às enchentes que causaram pelo menos cinco mortes, 600 desabrigados e um número ainda não calculado de pessoas que choram os diversos prejuízos causados pela enxurrada, o alcaide decidiu acusar as vítimas pela dor que enfrentam, jogou a culpa no colo da população.

Em frase que soa como um deboche cruel e desumano, Crivella disse que os moradores escolhem as áreas de risco nas margens dos rios porque “gostam de morar ali perto, porque gastam menos tubo para colocar cocô e xixi e ficar livre daquilo”. É de assustar.
Crivella parece estar aprendendo etiqueta e respeito sociais com o seu mais novo amigo de infância, o presidente Jair Bolsonaro, conhecido por terceirizar os próprios erros e responsabilidades, quase sempre em declarações grosseiras. Na ânsia de angariar a simpatia do presidente, em apoio a sua reeleição, o prefeito repete o modelo e ofende a população, especialmente a mais empobrecida.

As últimas chuvas atingiram brutalmente os bairros de Realengo, Jacarepaguá, Jardim Maravilha e Paquetá. Rios transbordaram, casas foram invadidas pelas águas, árvores caíram, fios elétricos foram derrubados. Estive em Realengo e presenciei parte desse drama. A maior parte da população afetada não escolheu enfrentar o risco para economizar uns trocados com os tubos e conexões do esgotamento sanitário; foram para esses locais por falta de opção, por falta de políticas públicas de moradia que ofereçam a perspectiva de casas dignas, adequadas e saudáveis para os mais empobrecidos. Por culpa de uma política que os exclui dos orçamentos, foram encurralados em moradias vulneráveis e frágeis.

O prefeito também acusou a população de lançar lixo nos rios e acusou até as árvores de lançarem folhas e galhos no chão (é sério). Na inacreditável entrevista, Crivella só esqueceu-se de olhar no espelho. Se tivesse feito, talvez lembrasse que, em 2019, a Prefeitura começou o ano destinando R$ 75,8 milhões para o programa de controle de enchentes. Mas, diante das tragédias ocorridas nas tempestades do início de 2019, aumentou a previsão de recurso para R$ 122,5 milhões. Ocorre que, desse total, apenas R$ 62,1 milhões foram de fato empregados.

Para este ano, 2020, a Prefeitura estimou utilizar R$ 100,7 milhões no mesmo programa, mas, até agora, entrando no terceiro mês, ainda não há registros de execução de qualquer recurso, nem um tostão, nem uma moeda de 5 centavos.

Então, de quem é a responsabilidade, sr. Crivella?

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